Médica realizando exame de coleta para teste de HPV em ambiente clínico moderno, com equipamentos médicos visíveis ao fundo

Há alguns anos, quando comecei a me aprofundar sobre epidemiologia do câncer, uma pergunta tornou-se inevitável: por que tantas mulheres ainda adoecem de câncer do colo do útero quando temos métodos simples, acessíveis e eficazes de prevenção e detecção precoce? A resposta, descobri com o tempo, é complexa. Passa pelo conhecimento sobre o HPV, tabus, políticas públicas, escolhas individuais e acesso a serviços de saúde. Compartilho aqui informações e experiências, de maneira direta e transparente, incluindo aprendizados na rotina como médica oncologista e na missão pela saúde integral, inspirada por projetos como o da Dra. Nayara Zortea Lima.

O que é HPV e por que devemos nos preocupar?

O papilomavírus humano é um vírus transmitido principalmente por contato sexual. Existem mais de 200 subtipos identificados até o momento, mas cerca de 14 são considerados de “alto risco” pela ciência, ou seja, têm potencial para causar câncer.

Segundo estimativas mundiais, 291 milhões de mulheres carregam o DNA desse vírus. Só para se ter uma ideia mais próxima, quase 105 milhões foram infectadas pelos tipos 16 ou 18, considerados os mais perigosos, uma vez que respondem por mais de 70% dos casos de câncer do colo do útero. A prevalência mundial de infecção varia entre países, mas é frequente e silenciosa.

O grande risco está justamente no silêncio: o HPV costuma não dar sintomas. E, quando finalmente se manifesta, pode ser tarde, pois as lesões já evoluíram.

O câncer não avisa, ele chega devagar.

Testes disponíveis: como detectar o HPV?

No meu consultório, ou mesmo nas campanhas de prevenção em que participei, é comum ouvir dúvidas sobre os tipos de exame – afinal, há diferentes métodos, cada qual com suas indicações e limitações. É fundamental conhecer para decidir de forma segura qual o melhor para cada situação.

Papanicolau: o tradicional que salva vidas

O exame de Papanicolau, também chamado preventivo, não detecta diretamente o vírus. Ele identifica alterações nas células do colo do útero causadas, em grande parte, pela infecção persistente pelo HPV. Isso permite tratar lesões precursoras antes que se transformem em câncer.

Sua realização é simples. Consiste em coletar células do colo uterino com uma espátula e uma escovinha, que são analisadas no laboratório. Não dói. Há incômodo para algumas mulheres, mas é breve.

No Brasil, é o método mais difundido nos serviços públicos e privados. Segundo estudos realizados em Boa Vista (Roraima), 85,6% das mulheres localizadas fizeram o exame nos últimos três anos, com adesão maior entre 20 e 34 anos (veja dados nacionais do rastreamento).

Coleta de exame papanicolau durante consulta ginecológica

Captura híbrida: o detector de DNA viral

A captura híbrida é um exame considerado de segunda geração. Diferente do Papanicolau, ela identifica a presença direta do material genético (DNA) do HPV em amostras do colo do útero. Permite separar, inclusive, entre subtipos de alto e baixo risco.

É um exame pouco desconfortável, pois a coleta é bem parecida com a do Papanicolau. No entanto, exige estrutura de laboratório específica, por isso seu custo costuma ser maior. Indicado em casos onde o resultado do preventivo foi alterado e há dúvida sobre a presença ativa do vírus.

PCR e testes moleculares

Mais recentemente, testagens baseadas em PCR (reação em cadeia da polimerase) revolucionaram a busca por DNA viral, com alta precisão. Também chamados de teste molecular para HPV ou DNA-HPV, eles apontam não só a presença do vírus, mas o subtipo detectado. O Ministério da Saúde incorporou esse teste ao Sistema Único de Saúde (SUS) para mulheres entre 25 e 64 anos desde 2024. Essa foi uma vitória para a saúde pública, pois permite identificar antes as mulheres sob risco aumentado e indicar medidas precoces de acompanhamento.

Amostras sendo analisadas em laboratório para testes de HPV

Indicações para homens e mulheres

Apesar do foco maior na prevenção do câncer do colo do útero, quero destacar que o HPV pode provocar tumores também em homens, como câncer de pênis, ânus, gengiva, boca e garganta. Os testes, porém, não são ofertados sistematicamente para os homens. Para mulheres com colo do útero, os exames citados acima fazem parte do rastreamento. Em casos de lesões suspeitas em homens, pode-se colher material para detecção do DNA do vírus na região suspeita, mas somente sob orientação do profissional.

Rastreamento regular: hábito que salva

Rastrear, para mim, é agir antes do problema ganhar força. Faz parte da minha rotina orientar: mulheres dos 25 aos 64 anos, sexualmente ativas, devem começar a realizar os exames de triagem conforme recomendação de protocolos nacionais. Também costumo reforçar que a periodicidade pode variar conforme histórico da paciente e resultados prévios.

  • O Papanicolau deve ser feito anualmente nos dois primeiros exames. Se negativos, pode passar para intervalos de três anos.
  • Já o teste molecular para HPV, oferecido atualmente pelo SUS, pode ser repetido a cada 5 anos quando negativo.

Existe uma resistência grande, ainda hoje, que não tem só a ver com acesso. Pesquisa nacional mostrou 57% das brasileiras desconhecem que o HPV causa câncer. O desconhecimento, os mitos sobre o exame e tabus em torno da sexualidade contribuem para o medo e o adiamento do cuidado.

Como interpretar os resultados?

Quando o resultado do Papanicolau aponta alguma alteração, pode ser algo simples (como inflamação), alterações de baixo grau ou até lesão de alto grau, que merece acompanhamento mais próximo. As lesões mais severas, conhecidas como NIC2 ou NIC3, indicam necessidade de maior vigilância ou procedimentos curativos locais.

O teste molecular para HPV, por sua vez, traz como resultado a “presença” ou “ausência” do vírus, podendo indicar quais subtipos foram detectados se positivo. Isso orienta a conduta: mulheres com HPV de alto risco são acompanhadas com mais atenção, repetindo exames ou realizando colposcopia para avaliar melhor o colo do útero.

Nem todo teste positivo significa câncer, mas todo câncer do colo do útero começa, geralmente, por um HPV não tratado.

Vacinação e prevenção: dupla imbatível

Como especialista, não posso deixar de defender: a vacinação contra o HPV transforma o futuro do câncer de colo do útero no Brasil. Desde 2014, meninas e meninos podem receber gratuitamente a vacina, que cobre os principais tipos oncogênicos. Essa medida é recomendada por órgãos nacionais e internacionais.

Além da vacina, o uso do preservativo nas relações sexuais e a limitação do número de parceiros são estratégias de prevenção que ensino, porque diminuem muito a exposição ao vírus. A vacina, no entanto, não substitui os exames de rastreamento. Uma coisa complementa a outra. E resultados impressionantes têm sido observados: estudo com dados do SUS mostrou redução de 58% nos casos de câncer do colo do útero entre vacinadas.

Crianças recebendo vacina HPV em sala de vacinação

O que acontece se a infecção por HPV não for detectada?

Confesso que esta é uma das perguntas que mais me preocupam no consultório. O vírus não identificado pode permanecer por anos no organismo, promovendo alterações celulares lentamente, até que uma lesão de alto grau ou mesmo o câncer surja.

A infecção persistente sem diagnóstico aumenta expressivamente o risco de tumores – em especial o do colo do útero, mas há também aumento do risco para cânceres de ânus, garganta e outros locais relacionados ao HPV. Especialistas, como a Dra. Nayara Zortea Lima, enfatizam o acompanhamento individualizado como caminho mais seguro, não apenas pela detecção precoce, mas pela humanização de todo o processo.

Não saber não protege. Detectar cedo é poder escolher o melhor caminho.

Sinais de alerta e quando buscar um oncologista

Falar sobre sintomas da infecção por HPV é delicado porque, na maioria das vezes, não há sinal algum visível ou percebido. Ainda assim, alguns sintomas exigem busca imediata por avaliação especializada:

  • Sangramento vaginal fora do período menstrual
  • Corrimento vaginal persistente e de odor forte
  • Dores durante a relação sexual
  • Verrugas genitais (em homens ou mulheres)
  • Dores pélvicas constantes
  • Feridas que não cicatrizam na genitália

Ao menor sinal desses sintomas, recomendo consultar um ginecologista ou oncologista capacitado, pois são os profissionais aptos para investigação, diagnóstico preciso e encaminhamento do melhor tratamento. O projeto da Dra. Nayara Zortea Lima destaca a importância do acolhimento durante esse processo, orientando cada paciente e família sem julgamentos, com esclarecimento e suporte.

Mulher conversa com oncologista em consultório, ambos sentados e atentos

Como agendar o exame e ter acompanhamento adequado?

O caminho para o agendamento nem sempre é padronizado. Em serviços públicos, basta buscar uma Unidade Básica de Saúde e solicitar o exame preventivo, que pode ser realizado por enfermeiros ou médicos capacitados. Com a inclusão do teste molecular para HPV no SUS, mulheres entre 25 e 64 anos terão acesso ainda maior à tecnologia mais moderna, dependendo do município e da organização local do serviço.

Na atenção privada, basta procurar um consultório ginecológico, clínica ou laboratorista. Sempre oriento, independentemente do local, para que o paciente esteja bem informado sobre o tipo de exame a ser realizado. O acompanhamento do oncologista é indicado para situações onde já existe alteração detectada ou fator de risco aumentado – sua atuação é ainda mais personalizada, como propõe a abordagem da Dra. Nayara Zortea Lima.

Conclusão: sua escolha faz a diferença

Após anos orientando pacientes e vendo histórias marcantes, acredito que “agir agora” é uma escolha. O diagnóstico precoce do HPV e o acompanhamento correto podem mudar completamente a trajetória de vida, não apenas para evitar um câncer, mas para preservar saúde e tranquilidade.

Se você nunca fez exame, tem dúvidas, ou mesmo se sente inseguro(a) para conversar sobre o tema, está na hora de mudar. Cuide-se. Programe seu exame, converse com profissionais que acolhem suas dúvidas e necessidades, como no projeto da Dra. Nayara Zortea Lima. Prevenção é cuidado, é respeito, é informação. Marque sua consulta e dê o primeiro passo para uma vida mais segura!

Perguntas frequentes sobre o teste de HPV

O que é o teste de HPV?

O teste de HPV é um exame laboratorial que detecta a presença do papilomavírus humano nas células do colo do útero. Ele pode ser feito por métodos moleculares (PCR, captura híbrida) ou ser complementado pelo exame de Papanicolau, que identifica alterações celulares relacionadas ao vírus. Seu objetivo é identificar mulheres sob risco e prevenir o câncer do colo do útero.

Como é feito o exame para HPV?

A coleta é semelhante ao exame de Papanicolau: utiliza-se uma espátula e escovinha para retirar células do colo do útero, que são analisadas no laboratório. No teste molecular, o laboratório procura diretamente o material genético do vírus. O procedimento é rápido, normalmente indolor ou com desconforto leve e passageiro.

Quando devo fazer o teste de HPV?

A recomendação atual é para todas as mulheres de 25 a 64 anos com vida sexual ativa, repetindo-se o exame preventivo anualmente nos primeiros resultados negativos e, depois, a cada três anos. Já o teste molecular pelo SUS pode ser feito a cada cinco anos para mulheres nessa faixa etária, caso o resultado seja negativo. Pessoas com fatores de risco podem precisar de rastreamento mais frequente.

Onde realizar o teste de HPV?

Você pode fazer o exame em Unidades Básicas de Saúde pelo SUS ou em clínicas e laboratórios particulares. Em ambos os casos, profissionais de saúde capacitados farão a coleta. Confirme sempre qual modalidade (Papanicolau, teste molecular ou ambos) será realizada de acordo com sua faixa etária e histórico.

Quanto custa um teste de HPV?

No sistema público (SUS), o teste está disponível gratuitamente, especialmente para mulheres entre 25 e 64 anos. Em clínicas privadas, o valor pode variar de acordo com a modalidade e localidade, mas geralmente fica entre R$100 e R$400, dependendo se é somente o Papanicolau ou inclui o exame molecular.

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Nayara Zortea

Sobre o Autor

Nayara Zortea

Dra. Nayara Zortea Lima é médica oncologista dedicada ao cuidado integral de adultos diagnosticados com câncer. Ela se destaca por sua abordagem humanizada, foco na qualidade de vida e atenção às necessidades individuais de cada paciente. Com experiência em práticas complementares e suporte emocional, Dra. Nayara acredita no acolhimento, na escuta ativa e no diálogo transparente para o desenvolvimento de planos terapêuticos personalizados.

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