Como médica atuante na oncologia clínica, vejo diariamente os desafios que envolvem o diagnóstico e o tratamento do câncer. Além dos sintomas e das emoções, existe uma série de garantias legais que podem e devem ser conhecidas por quem está nessa jornada. Eu acredito, com base na minha experiência e no que tenho acompanhado nos atendimentos, que a compreensão sobre os direitos ajuda o paciente a viver cada etapa com maior confiança e proteção.
Entendendo o universo de quem recebe o diagnóstico
Ser diagnosticado com câncer muda a vida. Dados recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que a incidência permanece alta: para cada ano do triênio 2020-2022, foram estimados 625 mil novos casos de câncer no Brasil. Isso significa que milhares de famílias estão buscando orientações, tratamentos e suporte.
Mas, às vezes, tão difícil quanto enfrentar a doença é navegar por todas as informações sobre direitos, benefícios e auxílios. Por isso, abordar o tema dos direitos legais para quem enfrenta o câncer é, para mim, um passo importante de acolhimento e empoderamento.
A informação certa pode mudar o percurso do tratamento.
Direitos previstos no Estatuto da Pessoa com Câncer
Um marco relevante para o paciente oncológico brasileiro foi a sanção do Estatuto da Pessoa com Câncer, em 2021. Este documento garante, por lei, direitos fundamentais como:
- Diagnóstico precoce
- Tratamento integral e humanizado pelo SUS
- Informação clara sobre a doença e o tratamento
- Assistência social, psicológica e jurídica
- Prioridade de atendimento na saúde, respeitando outras prioridades
Se você tiver interesse em saber mais detalhes sobre essas bases legais, pode se aprofundar diretamente nas informações do Estatuto da Pessoa com Câncer. Na prática, isso significa que, ao receber o diagnóstico, já existe uma proteção que respalda o paciente para exigir o que é direito seu desde o início da caminhada.

Diagnóstico precoce e acesso ao tratamento
Ter acesso ao diagnóstico precoce faz toda a diferença. Quanto antes a doença é detectada, maiores são as chances de sucesso terapêutico. O Estatuto garante que exames, consultas com especialistas e início do tratamento aconteçam em tempo hábil, especialmente pelo SUS.
Infelizmente, nem sempre a rede pública consegue atender a essa demanda rapidamente. Segundo dados oficiais, existem 317 unidades para tratamento de câncer no SUS, número considerado insuficiente. Ainda assim, o direito ao diagnóstico e ao tratamento integral permanece garantido pela legislação, e conhecer isso já transforma a postura frente ao atendimento.
Como agir se o atendimento demorar?
Na prática, meu conselho é: quando houver dificuldade para agendar consultas, realizar exames ou iniciar o tratamento, procure registrar a situação por escrito e, se possível, busque apoio jurídico. Canais de Ouvidoria da Saúde, Defensorias Públicas e Ministério Público podem ser acionados para fazer valer a lei. O suporte especializado, como o que ofereço em minha atuação, faz diferença para orientar quais caminhos seguir.
Tratamento integral e humanizado
Por lei, não basta apenas oferecer o tratamento da doença. O cuidado deve ser integral e humanizado, considerando as necessidades físicas, emocionais, sociais e espirituais. Esse princípio norteia minha abordagem e, felizmente, tem se espalhado entre muitos profissionais de saúde.
O tratamento pode envolver cirurgia oncológica, quimioterapia, radioterapia, hormonoterapia, imunoterapia, entre outras técnicas. Cada plano terapêutico é único, adaptado à localização do câncer, ao estágio e à condição clínica da pessoa, conforme detalhado nos protocolos clínicos nacionais.
O que é atenção integral?
A visão de atenção integral inclui:
- Controle da dor e dos sintomas
- Acompanhamento psicológico e social
- Paliativismo, quando necessário
- Orientação nutricional e fisioterapia
- Participação ativa do paciente nas decisões
O acesso a medicamentos e exames também faz parte desse cuidado mais amplo, que visa não somente “combater a doença”, mas sobretudo preservar autonomia, dignidade e qualidade de vida.
O paciente tem direito a ser ouvido, respeitado e cuidado de forma única.
Benefícios sociais e previdenciários
No cenário brasileiro, o paciente com câncer pode acessar alguns benefícios sociais e previdenciários, que ajudam a enfrentar momentos de afastamento do trabalho e dificuldades financeiras.
Eu costumo orientar sobre cada benefício, esclarecendo requisitos e o passo a passo para solicitação. Entendo, pela convivência com muitos pacientes, que esse apoio impacta diretamente na tranquilidade para seguir com o tratamento.
Auxílio-doença do INSS
O auxílio-doença é um benefício pago ao segurado incapaz temporariamente para o trabalho, por motivo de doença. Quem recebe o diagnóstico de câncer pode solicitar esse direito, desde que esteja contribuindo ou, em alguns casos, dentro do chamado “período de graça”.
- Requisitos: laudos médicos detalhados, exames, documentos de identificação e número do NIT/PIS/PASEP.
- Como solicitar: o pedido é feito no site ou aplicativo “Meu INSS”, seguido por perícia médica.
- Dica importante: o relatório do oncologista deve descrever a incapacidade e o tempo estimado de afastamento.
Aposentadoria por invalidez
Se a incapacidade para o trabalho for permanente, surge a possibilidade da aposentadoria por incapacidade (antiga aposentadoria por invalidez). O processo envolve perícia médica e relatório completo do quadro clínico, elaborado preferencialmente pelo médico assistente.
Benefício Assistencial (LOAS)
- Como funciona: oferta um salário mínimo mensal a pessoas de baixa renda com deficiência, inclusive por câncer, que comprovem incapacidade e situação vulnerável.
- Documentos: RG, CPF, laudo médico, comprovante de renda, carnês de contribuição, entre outros.
Esse benefício não exige contribuição prévia ao INSS, mas tem critérios rigorosos quanto à renda familiar. Vale a pena buscar orientação profissional para avaliar esse direito.
Saque do FGTS e PIS/PASEP
O trabalhador com câncer pode sacar integralmente o saldo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e das cotas do PIS/PASEP, tanto para si quanto quando o dependente é diagnosticado.
- Solicitar junto à Caixa Econômica Federal
- Apresentar laudo médico com o CID da doença e documentos pessoais
- Caso sejam negativas as respostas, formalizar reclamação por escrito e buscar apoio jurídico

Isenções de impostos: IPI, ICMS, IPVA e outros
No contexto econômico, algumas doenças garantem ao paciente isenção de impostos, visando facilitar a aquisição de bens e aliviar despesas cotidianas. O câncer está incluído nesse grupo. Essas isenções não são automáticas. Cada benefício tem requisitos, prazos e obrigações específicas.
Isenção de IPI
Válida para compra de carro 0 km adaptado, por pessoa com deficiência física, visual, mental ou autista, inclusive incapacitante devido ao câncer. Exige laudo médico, carteira de habilitação, comprovante de renda e documentos do Detran.
Isenção de ICMS
A isenção do ICMS, imposto estadual, também pode ser solicitada para compra de veículos adaptados. Cabe ao Detran estadual emitir normas próprias e orientação sobre o trâmite.
Isenção de IPVA
Estados brasileiros, em geral, isentam o IPVA de carros de pessoas com deficiência decorrente de doenças graves. O paciente ou seu representante apresenta laudos à secretaria de fazenda estadual para análise.
Isenção de Imposto de Renda
Pessoas aposentadas por câncer têm direito a isenção do Imposto de Renda sobre os proventos. Apresenta-se o laudo ao RH do órgão pagador, que fará o ajuste nos valores recebidos.
- Apresente sempre laudo médico com CID e descrição detalhada
- Se houver negativa, peça justificativa por escrito
- Leve cópias de toda documentação
Prioridade no atendimento
Por força de lei, pacientes diagnosticados com câncer têm atendimento prioritário em órgãos públicos, instituições financeiras e serviços de saúde. O objetivo é evitar exposição prolongada ao risco e reduzir sofrimento físico e psicológico.
Basta apresentar laudo médico identificando a condição para garantir a prioridade. Vale destacar que essa prioridade deve ser respeitada mesmo nos casos em que existam outras prioridades legais, como idosos e pessoas com deficiência.
Na minha rotina de consultório, oriento pacientes a sempre portar esse laudo para situações em que seja necessário comprovar o direito, especialmente em filas do INSS, bancos e serviços hospitalares.

Como solicitar, passo a passo
Um dos pontos que mais geram dúvidas é o que fazer, quando e onde. A seguir, trago um resumo prático do processo para garantir cada direito citado, com base na minha vivência ao lado de pacientes e familiares.
Documentação necessária
Embora cada direito tenha suas peculiaridades, de forma geral, será preciso apresentar:
- Documento de identidade e CPF
- Comprovante de residência
- Laudo médico atualizado, detalhado, assinado e com CID
- Carteira de trabalho ou comprovante de vínculo empregatício
- Documentação relativa ao benefício específico (formulários, carteira de habilitação, etc.)
Mantenha tudo organizado em uma pasta, com cópias autenticadas sempre que possível.
Solicitação de benefícios previdenciários
- Agende ou faça o pedido pelo site/aplicativo Meu INSS
- Anexe os documentos digitalizados conforme orientações da plataforma
- Aguarde o agendamento da perícia médica
- Compareça à perícia com laudos originais e exames
- Anote o protocolo de atendimento para eventuais recursos
Solicitação de isenções e saques especiais
Para isenção de impostos, saque do FGTS e PIS/PASEP:
- Solicite ao médico assistente um laudo detalhado, citando o CID e o impacto funcional
- Reúna RG, CPF, comprovante de residência e documentação do bem/veículo
- Vá até o órgão responsável (secretarias estaduais, Receita Federal, Caixa Econômica Federal) com documentação em mãos
- Protocole o pedido e solicite comprovante de recebimento
- Se houver negativa, procure, preferencialmente, Defensoria Pública ou advogados especializados para orientação
Apoio jurídico: quando buscar e como funciona?
Embora a maioria dos direitos seja considerada autoaplicável, existem situações de negativa ou morosidade injustificada. Nestes casos, o apoio jurídico se faz necessário. Procure orientação sempre que:
- O benefício solicitado for negado, mesmo com documentação completa e atualizada
- O tempo de resposta ultrapassar o prazo legal (especialmente aposentadorias e isenções)
- For exigida documentação não prevista em lei ou solicitada de forma abusiva
Neste cenário, defensores públicos e advogados especializados são aliados. Na minha prática, ressalto que o respaldo médico – com laudos e histórico detalhados – fortalece muito o processo jurídico quando necessário. Por isso, mantenha contato frequente com seu médico de referência.

O papel do acompanhamento médico e psicológico contínuo
Além das questões legais, nunca posso deixar de reforçar que o acompanhamento com equipe multidisciplinar é peça-chave no enfrentamento do câncer. Médicos, psicólogos, fisioterapeutas e nutricionistas, em conjunto, ajudam não apenas na saúde biológica, mas no entendimento e reivindicação de direitos.
Segundo dados publicados pelo INCA, milhares de pessoas em cuidados paliativos já se beneficiam de uma atuação alinhada entre equipe de saúde, assistência social e núcleos jurídicos, principalmente em questões de vulnerabilidade e autonomia.
Por que buscar apoio psicológico?
O luto, os medos e as inseguranças fazem parte do processo. A escuta terapêutica impacta na adesão ao tratamento e na qualidade de vida. Muitos direitos exigem laudos, exames e avaliações que também dependem do relato emocional e das expectativas de vida do paciente.
Cuidar da saúde mental é um direito, não um luxo.
Autonomia do paciente e cuidado centrado na pessoa
Um ponto que sempre ressalto, tanto nos atendimentos como na orientação de familiares, é: o paciente é o protagonista da própria jornada. A autonomia significa que as decisões sobre o tratamento devem ser compartilhadas, respeitando valores, crenças e sonhos de cada pessoa. Isso vale desde a escolha do método terapêutico até a reivindicação de direitos legais e sociais.
O cuidado centrado na pessoa, inclusive, norteia a prática que sigo como a Dra. Nayara Zortea Lima. Vejo cotidianamente como esse respeito fortalece o vínculo da equipe com o paciente e proporciona mais leveza durante situações difíceis.
Como comunicar desejos e dúvidas?
Dialogue constantemente com seu médico e com a família. Peça explicações claras e, caso sinta necessidade, leve por escrito suas dúvidas às consultas. Registrar tudo ajuda a garantir que suas escolhas sejam respeitadas em qualquer situação.
A voz do paciente precisa ser escutada em todas as etapas do tratamento.
Exemplos práticos e esclarecimento de dúvidas comuns
Ao longo dos anos, colecionei depoimentos e situações que ilustram como um direito pode impactar o tratamento e a vida do paciente oncológico. Compartilho aqui alguns exemplos para ajudar você a entender melhor na prática.
- Maria, 47 anos, com câncer de mama, conseguiu isenção de Imposto de Renda na aposentadoria após apresentar laudo detalhado ao RH do órgão pagador. Ela só ficou sabendo desse direito porque foi orientada pela equipe multidisciplinar.
- João, 59 anos, afastado do trabalho, obteve auxílio-doença e saque do FGTS em menos de dois meses, pois já levou toda documentação pronta à perícia médica do INSS.
- Lúcia, de 34 anos, descobriu um câncer raro e teve dificuldade em obter atendimento especializado na cidade onde morava. Com informação sobre seus direitos, buscou a Ouvidoria e posteriormente foi encaminhada para centro oncológico em outro estado.
Histórias assim mostram que acesso à informação e organização documental aceleram o caminho até o exercício real dos direitos.
Dicas para organização e autodefesa dos direitos
Com base no que já vivi acompanhando pacientes e famílias, deixo algumas sugestões que considero úteis:
- Mantenha uma pasta somente para documentos médicos e solicitações
- Anote números de protocolos, datas e nomes das pessoas com quem falou
- Leve acompanhante às consultas para auxiliar na compreensão e na cobrança dos direitos
- Procure sempre laudos com datas atualizadas e o máximo de detalhes técnicos e descritivos
- Caso algum benefício seja negado, peça a resposta formalmente e emita recurso por escrito
- Lembre-se de que a prioridade legal aplica-se também ao recebimento de medicamentos e exames no SUS
Organização é sinônimo de garantia dos seus direitos.
A atuação do projeto da Dra. Nayara Zortea Lima
Como profissional de saúde e fundadora desse projeto, vejo na prática o impacto do conhecimento sobre garantias legais na vida dos meus pacientes. Além do cuidado clínico, busco integrar informações sobre direitos às consultas e orientações, promovendo uma experiência humanizada e livre de inseguranças jurídicas.
Acolher dúvidas, orientar individualmente e sugerir caminhos práticos fazem parte da proposta do consultório. Sei, por experiência, que muitos benefícios ainda são pouco conhecidos e subutilizados, o que reforça a necessidade de projetos voltados à difusão do direito do paciente oncológico.
Conclusão
Passar por um diagnóstico de câncer, além de todas as dificuldades clínicas e emocionais, também traz a necessidade de conhecer e reivindicar direitos. Entender os benefícios que as leis brasileiras oferecem – do acesso ao diagnóstico precoce à prioridade no atendimento, do auxílio-doença à isenção de impostos – fortalece o paciente, a família e toda a equipe de cuidado.
Na minha percepção, o ponto-chave está em se informar, organizar toda a documentação, buscar apoio da equipe de saúde e não hesitar em procurar especialistas jurídicos quando sentir que algum direito foi violado.
Eu acredito muito que cada etapa do acompanhamento deve ser transparente e respeitar desejos, limites e sonhos. Por isso, faço do meu cotidiano, no consultório da Dra. Nayara Zortea Lima, esse espaço seguro para diálogo aberto, orientação clara e cuidado centrado na pessoa. Se você ou alguém próximo está nessa jornada, permita-se conhecer melhor seus direitos e venha conversar conosco para receber orientação, acolhimento e todo o suporte para garantir sua dignidade e qualidade de vida!
Perguntas frequentes sobre direitos do paciente oncológico
Quais os principais direitos do paciente oncológico?
Pessoas com câncer têm direito ao diagnóstico precoce, tratamento integral e humanizado no SUS, benefícios sociais e previdenciários (auxílio-doença, aposentadoria por invalidez, LOAS), isenções fiscais (IPVA, IPI, ICMS, Imposto de Renda), saque do FGTS/PIS-PASEP e prioridade de atendimento em órgãos públicos. Tudo isso está assegurado pelo Estatuto da Pessoa com Câncer e outras leis federais.
Como solicitar benefícios para pacientes com câncer?
O primeiro passo é reunir laudos médicos detalhados, documentos de identificação, comprovante de residência e, quando for o caso, carteira de trabalho ou documentos do INSS. Em seguida, o pedido pode ser feito no site ou aplicativo do Meu INSS (previdenciários), na Caixa Econômica Federal (FGTS/PIS), Receita Federal ou secretarias estaduais para isenções de impostos. No caso de negativa, o paciente pode recorrer à Defensoria Pública ou advogado especializado.
Quem tem câncer pode se aposentar por invalidez?
Sim, desde que a incapacidade para o trabalho seja total e permanente, atestada pelo médico assistente e confirmada em perícia do INSS. Em alguns casos, mesmo aposentado, o paciente pode continuar recebendo isenção do Imposto de Renda nos proventos relacionados à doença.
Quais documentos preciso para garantir meus direitos?
Normalmente são necessários RG, CPF, comprovante de residência, laudo médico atual e detalhado (com CID), carteira de trabalho, carnês de contribuição, documentos do veículo ou bem para isenção fiscal, e formulários específicos de cada órgão. Sempre leve cópias autenticadas e protocolos de requerimento.
Onde buscar orientação sobre direitos do paciente oncológico?
O paciente pode buscar orientações diretamente com seu médico (como faço no meu consultório), serviço social do hospital, Defensoria Pública, Ministério Público e grupos de apoio ao paciente oncológico. O projeto da Dra. Nayara Zortea Lima também se disponibiliza para auxiliar, promovendo orientação e suporte individualizado para cada caso.
